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Semáforo vermelho

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Após resolver a última pendência dos atendimentos no meu consultório, pude fechar as luzes, o ar condicionado e trancar as portas. Enfim, já era noite da sexta-feira e não tinha nada mais para ser feito. Assim as coisas aconteceram, portanto juntei alguns papéis e alguns boletos de contas a serem pagas e coloquei-os dentro de um envelope. Chamei o elevador que demorou a chegar. Não sei dizer se demorou de fato ou se minha ansiedade de finalizar a semana levou a uma leitura equivocada nesta analise temporal. O importante é que ele chegou e ao entrar dentro dele tive a certeza absoluta de que a jornada da semana tinha findado. Meu único desejo, naquele momento, seria entrar numa máquina capaz de me teletransportar à minha casa. Sem sonhar com a ficção científica, não haveria outra escolha, portanto eu precisaria encarar o trânsito.

Ajustei a temperatura do ar condicionado e modulei a intensidade do som do carro. Enfim, era realidade, ou seja, eu estava indo para casa. A cabeça pesava e os músculos contraíam sinalizando como tudo foi desgastante naquela semana. Afrouxei o nó da gravata e desabotoei o botão do colarinho. Escolhi um CD do Teatro Mágico que havia recebido de presente semanas atrás. Este presente foi ofertado por um paciente com uma magnífica história. No entanto, isto será, em breve, tema de outra crônica que terei o prazer de dividir com todos vocês. Como não conhecia todas as músicas do CD, sintonizei em uma delas chamada “Sonho de uma flauta” cujo refrão era “sonho parece verdade quando a gente esquece de acordar”. Esta música e este refrão têm tudo a ver com o que está prestes a acontecer e será descrito nesta crônica. Enfim, saí do estacionamento e transitei como de costume pela seqüência convencional das ruas em direção à minha casa. Nesta hora, sou igual a todos, pois detesto semáforo fechado com as luzes vermelhas acesas. Inclusive, quando ele está “amarelando” costumamos dar uma aceleradinha para evitá-lo. Naquele dia não foi diferente e numa rua que dava acesso para uma avenida maior cujo sinal era bem demorado percebi os carros passando e o semáforo alertando o fechamento com a luz amarela tradicional. Tentei acelerar e passar, mas o esforço foi em vão, pois ele ficou vermelho e tive que parar. Notei que eu fui o único que não tive sucesso em avançar aquele cruzamento. Não existiam outros carros ao meu lado e fiquei, desgostosamente, sozinho naquele demorado sinaleiro. De repente, duas pessoas correram em direção à faixa de pedestre e ficaram olhando para o meu carro. De início, notei que era um homem e uma mulher e pensei em voz alta: “serei assaltado”. Seria mais um evento característico da violência urbana que é tão descrita nos jornais e que nós pensamos que só acontece com os outros? Fiquei em silêncio e lembrei-me do Rappa e da sua música “O silêncio que precede o esporro”. Fiquei esperando o esporro e na torcida de que nada de pior pudesse acontecer comigo. No entanto, parei para observar melhor a cena e percebi que ambos estavam com as faces pintadas de branco e rabiscadas de vermelho e preto sinalizando rostos palhaços. Eu nunca vi alguém cometer um delito ou um ilícito nas ruas com esta apresentação. De forma abrupta, eles tiraram de uma sacola um mundaréu de objetos e começaram a se apresentar. O mais estranho é que naquele instante se apresentavam somente para mim. Eu me senti um privilegiado pelo espetáculo vip. Num compasso ensaiado, eles me saudaram num ato de reverenciar posicionando a cabeça para baixo com o tronco encurvado. Aí, meus caros, uma apresentação fantástica começou. Não pela grandiosidade dos malabares, mas pela grandiosidade da humildade, alegria e liberdade. Olhei no meu relógio e já se passava das 21:00h e a alegria deles representadas no olhar e no sorrir era, ainda, vívida. Eu não saberia dizer desde que horas eles estariam ali? Só sei que eles chegaram perto do carro e começaram a jogar vários objetos para cima. Primeiro foram várias bolas de tênis e depois alguns pinos de boliche.  Repentinamente, surgiu um monociclo e tochas com fogo. Enquanto um deles jogava de tudo para cima e se equilibrava numa roda só, o outro cuspia fogo. Que legal! Cada bola jogada para o alto aliviava minha angústia da semana e cada cuspida incandescente saciava meu cansaço. O olhar de cada um deles teve um efeito ansiolítico na minha ansiedade. A espontaneidade e a humildade deles fez fervilhar em mim um desejo de me permitir mais. Não tive dúvidas e quando a última bolinha de tênis caiu, certeiramente, na pequena sacola de pano amarrada na cintura de um dos artistas de rua, comecei a buzinar e aplaudir de dentro do meu carro. Eles se olharam e começaram a rir e num passe de mágica correram para minha porta e bateram no vidro. Agora sem medo, eu o abri e escutei num sotaque “portunhol” o seguinte pedido: “Você quer participar do espetáculo”?

Por que não? Eu estava de bobeira como os jovens falam e estava feliz em presenciar tudo aquilo. Abri a porta do carro e os acompanhei. Tudo isto aconteceu nos dois minutos iniciais do semáforo vermelho e só restariam outros poucos minutos. Eu de paletó e engravatado no meio de dois artistas de rua que se apresentavam num cruzamento. Enfim, poucos acreditariam nisto e se algum paciente, porventura, flagrasse uma cena desta, certamente, interpretaria que eu estava surtando. Quer saber, não pensei em nada capaz de me barrar ou em ninguém que se atrevesse a me criticar. Pensei na possibilidade de quebrar regras e normas sociais bem como o direito de ter papéis diferentes daqueles que eu executava nesta roda viva do cotidiano. Enfim, pensei, quem sabe, em assumir outros caminhos. Por isto, lembrei-me do refrão da música “Deus me Proteja” de Chico César e não tive a menor dúvida em tentar dar o meu máximo naquele momento artístico para o qual eu fui convocado. Assim, tentaria aplicar o que Chico César cantou.

 

“Caminho se conhece andando 

Então vez em quando é bom se perder 

Perdido fica perguntando

Vai só procurando 

E acha sem saber 

Perigo é se encontrar perdido

Deixar sem ter sido

Não olhar, não ver 

Bom mesmo é ter sexto sentido

Sair distraído espalhar bem-querer”

 

Agora, eu fazia parte daquela trupe das ruas. Os artistas fizeram outro ritual de apresentação me incluindo na saudação ao público que no momento já tinha em sua constituição outros carros. Claro, que eu saudei a todos de forma respeitosa e solene. Então, começamos a apresentação. Inicialmente, fiquei em pé no centro da faixa num pequeno batente madeira segurando um grande oval vazado por sobre a minha a cabeça. Os artistas se posicionaram em pontos opostos e começaram jogar objetos por dentro do oval num ritmo sincronizado evitando acidentes. Fiquei olhando para cima e saboreando aquele movimento. Enquanto os objetos passavam, eu ficava pensando na minha vida e naquele caminho que escolhi o qual era caracterizado por muito trabalho e muitas responsabilidades. Cada pino que transpunha o oval representava na minha imaginação as várias demandas da minha “vida louca vida”. Eles passavam sem parar e seguiam a mesma característica sequenciada das recorrentes preocupações vividas por mim. Por fim, eu pude compreender que os pinos, tais como minhas preocupações, não podiam se desgovernar ou se chocar sob pena de acontecer o caos. Após este número, eu fiquei segurando duas varetas que tinham pratos rodando em cima enquanto eles faziam piruetas no solo. Quando a velocidade dos pratos diminuía, um dos artistas rapidamente corria na direção das varetas e fazia movimentos precisos para manter o equilíbrio dos pratos. Pensei nos meus pacientes e na analogia de ter que mantê-los em equilíbrio constante, pois é difícil de aceitar uma queda capaz de quebrá-los em cacos pela dificuldade de uma junção posterior dos seus pedaços. Quando eu percebi, o semáforo já estava verde há alguns segundos e os carros buzinando em busca de uma abertura na passagem interrompida por “nós”, artistas das ruas. O meu desejo era ficar ali o tempo que pudesse, pois poderia esquecer tudo nem que fosse transitoriamente. Portanto, enquanto equilibrava as varetas e os ovais vazados da nossa trupe, eu não precisava responder pelas demandas que, cansativamente, respondo. Não posso afirmar que eu seria mais feliz neste formato de vida, inclusive temos aqui um questionamento difícil de ser respondido e quantificado. Portanto, quem está sendo mais feliz? Seria eu ou eles? A felicidade não pode ser mensurada como se fosse uma medida objetiva, porém adoro a declaração de Drummond sobre felicidade. Enfim, “ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”. Neste contexto, eles arbitravam mais sobre seu tempo e sua vida do que eu. As horas eram mais frouxas e os compromissos menos compromissados. Talvez, com o tempo, isto pudesse gerar angústia pela falta de concretude na vida. No entanto, a nossa concretude excessiva e a nossa agenda extrema nos trazem felicidade? Meus momentos de artista de rua deixaram-me duvidoso sobre isto. Confesso que foi engraçado e grandioso. Um ser todo engravatado inventando moda para ser artista de rua tarde da noite. A plenitude do ato e o envolvimento com os afetos provenientes dele me fez abstrair como são importantes as pequenas coisas da vida e a necessidade de tentar ser, vez por outra, o que você não é. Como é necessário se permitir e dar asas às nossas possibilidades e potencialidades. O ato de viver um sonho e desejar que ele se concretize afastará rótulos e quebrará paradigmas. Ainda não sei responder se o melhor é trabalhar com muitas demandas como médico, servidor público e pesquisador ou se é mais proveitoso ser artista da vida sem muitas regras e com muitas possibilidades. Quem sabe poderei mesclar um pouco mais e ficar menos bitolado num funcionamento rígido. Quem sabe não possa haver malabares na minha sala de espera. Quem sabe em alguns momentos eu não possa maquiar meu rosto para atender alguns pacientes. Quem sabe eu possa “perder algum tempo do meu precioso tempo” para me permitir ser diferente. Ser diferente em qualquer lugar seja num semáforo, seja na minha casa, seja no meu trabalho, ou seja, na minha vida. Isto me permitirá, de fato, ser diferentemente melhor e, quem sabe, poderei estimular outros, como você que me ler, a ser diferente. Sejamos diferentes na medida do possível. Não é preciso violentar princípios, mas evite formatações e quem sabe concordaremos com Bob Marley quando ele fala da diferença e da normalidade no seguinte pensamento: “vocês riem de mim por eu ser diferente e eu rio de vocês por serem todos iguais”.

Não dava mais para forçar o fechamento do trânsito. A sequência de buzinas era ensurdecedora e alguns dos motoristas já estavam colocando a cabeça para fora das janelas e gritando adjetivos não muito agradáveis. Que pena! Todos iguais e nenhum diferente. Olhei para os dois companheiros da trupe e fui surpreendido com um beijo de ambos nas minhas duas bochechas. Parecia ensaiado, pois o ato de beijar foi rítmico. Ao final daquele beijo, eles falaram conjuntamente: “muchas gracias”. Mal sabiam eles que eu quem estava muito agradecido. Entrei no meu carro, dei a ignição e parti sob o olhar atento e o sorriso espontâneo deles. Depois de alguns minutos, percebi que me esqueci de dar a gorjeta, porém entendi que a relação ali não tinha sido comercial e, sim, afetiva. Até por que, as relações frias e comerciais desta natureza são características dos seres intitulados como “iguais e normais” e não de seres apelidados de “diferentes e desviantes”. Fui para casa feliz e com a sensação de dever cumprido no ofício de ser artista de rua.

Dr. Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra
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Comentários   

 
+1 #2 Giselle Magalhães 17-04-2013 17:15
Adoro os seus textos!
Trazem-nos leveza no refletir sobre a vida, com graça, com arte.
Parabéns pela iniciativa e por compartilhar conosco suas ricas experiências.
Abraço
Giselle Magalhães
(Psicóloga Clínica)
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0 #1 claudia.meira.matias 15-04-2013 22:23
Legal, Regis!
Gostei muito de ler seu texto. Já li alguns e sempre gostei de suas reflexões. Parabéns pela ousadia...no semáforo e na vida!!!
abração
Cláudia Meira
(psicóloga - TJDFT)
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