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O Quinze, cem anos depois

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Quem nunca leu o romance “O Quinze” da fabulosa escritora cearense Rachel de Queiroz, deveria fazê-lo. Ela descreve, com um olhar real e regional, o sofrimento de uma família cearense, vítima da seca e de todas as suas conseqüências. Ao final, na busca de um sonho quase impossível (felicidade e oportunidade), eles vagam para São Paulo após uma penosa e sofrida jornada de retirante. Nesta trama, Chico Bento e sua família, já cansados e humilhados pelos desígnios da seca, migraram para a cidade grande com a esperança de encontrar a paz. E assim eles fizeram, por mais que, no fundo, eles soubessem que a paz nunca seria alcançada.

Pois bem, 100 anos depois deste enredo, uma nova seca nasce. Contudo, uma seca diferente. Uma seca na selva de pedras. Uma seca na própria cidade e região que Chico Bento apostou suas fichas. Uma seca numa localidade famosa pelas enchentes. Uma seca na terra da garoa e de chuvas que alagam. Uma seca numa região de rios perenes. Quem diria! Uma seca! Mas é verdade. Só escutamos que o Sistema “Cantareira” vai secar e que a água vai acabar. O governo de São Paulo negava, todavia esta semana passou a afirmar que o racionamento será uma realidade. Portanto, a partir de então, iniciará outro ciclo de silêncio e de várias negações da realidade. Seria, mais ou menos, “um silêncio que precede o esporro”. Em outras palavras, todos estão amedrontados com uma possível notícia a ser estampada nas manchetes dos jornais, sobretudo, após o período de silêncio destacado acima. Todos temem ler ou escutar a seguinte manchete: “infelizmente, não choveu e a água acabou”. 

Quando Chico Bento e sua família foram expulsos daquele fim de mundo, esquecido por todos e localizado no sertão cearense, certamente, ele culpou a seca que é representada em sua plenitude pela falta d’água. Na obra “O Quinze”, uma pequena sentença conseguia explicar bem a seca de 1915, no Nordeste, e de 2015, em São Paulo – “como é agressiva e inconstante a natureza”. Não tenho dúvida que ela é, pois ora se chove horrores, ora não chove a ponto de gerar horror. Todavia, associado à questão climática, existe algo muito mais grave – a condição humana. Esta se sobrepõe ao intemperismo físico. A falta de planejamento e de respeito, frente ao sofrimento repetido de uma população que vive numa determina região, é o mais grave. Ou seja, as instabilidades climáticas maltratam menos do que o esquecimento político. Este sim dói e dói muito. Lá no Sertão Nordestino, o mesmo sertão representado no livro “O Quinze”, a falta d’água é, infelizmente, um fenômeno conhecido. E se conhece bem, por que ele se repete quase todos os anos. Lamentavelmente, a situação de São Paulo tem a mesma gênese de falta de planejamento, visto que, tal problemática transcende a carência de pluviosidade. No entanto, a grande diferença é que a falta d´água mantida é uma novidade nesta megalópole paulista. Se a água acabar de fato, como divulgado, será um caos até por que o ciclo poderá se repetir. E a cada repetição, o desespero aumenta. Como estamos falando de uma população intelectualizada, é bem possível que o desespero se transforme em revolta com cobranças mais eficientes do que as realizadas pelo povo pobre e de pouca instrução do sertão nordestino. 

A escassez de água numa região em que ela é abundante deixa uma mensagem manifesta – o desrespeito para com os outros. Quem sabe, isto possa mudar e, quem sabe, o sertanejo pobre e sem sonhos, que muitas vezes mendiga e se humilha na cidade grande, possa ser mais compreendido na sua dor. Enfim, Chico Bento e seus amados foram afugentados pela seca e, no final da peregrinação, foi proposto a ele tentar a vida em São Paulo com a seguinte fala reflexiva: “Por que vocês não vão para São Paulo? Diz que lá é muito bom... Trabalho por toda a parte, clima sádio... Podem até enriquecer. Que pena! Se a história ocorresse nos dias de hoje, 100 anos depois, Chico Bento precisaria saber que São Paulo vive a maior crise de água da sua história. Alguém teria que alertá-lo, informando que poderá faltar água. É a seca de 2015!

Dr. Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra
Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP – USP 
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