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E agora, José? Como fica o SUS?

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Qual seria o futuro da saúde brasileira e do Sistema Único de Saúde? Em tempos de escândalos governamentais e de caos na saúde, estes questionamentos são bem atuais. O funcionamento das unidades de saúde e a organização do sistema sucumbem e desmoronam frente à má gestão deste sistema.

Conseqüentemente, muitos começaram a questionar o SUS e tais questionamentos perpassam pela análise crítica da filosofia do sistema, seu funcionamento, seu financiamento e até os seus princípios. Contudo, onde estariam os engodos do SUS? No sistema ou nas pessoas ou em ambos?

A crítica ao SUS é um ato simples e natural para aqueles que trabalham nele e percebem seus problemas bem como para aqueles que necessitam dele e não têm as devidas demandas sanadas. Mas, o mais rico seria uma análise aprofundada capaz de gerar respostas e, quem sabe, propostas. A construção do SUS aconteceu num momento rico da história democrática brasileira e seus princípios (universalidade, equidade, integralidade, descentralização, participação popular, hierarquização e regionalização) visavam proteger a coletividade e a totalidade da população. Todavia, a defesa da totalidade é um ato factível, pragmático e, realmente, aplicável? As respostas a tais análises ainda não foram respondidas plenamente e cada vez mais são urgentes, frente às dificuldades do sistema.

Há de se destacar a beleza do projeto e do ordenamento teórico do SUS, mas não podemos refutar a idéia de analisar o momento e as dificuldades do sistema. Para refletir e estimular uma discussão construtiva, eu listarei alguns questionamentos que passaram, agora, na minha cabeça:

  1. A universalização gera competições internas por recursos entre os prestadores e competições externas entre usuários pela assistência à saúde? Prevalecem aqueles com algum diferencial sócio-econômico e cultural? Em suma, a universalização é viável?
  2. A equidade pode se perder numa sociedade extremamente desigual, visto que, a desigualdade econômica, social e intelectual impossibilita, quase que totalmente, a equidade?
  3. A integralidade é um ato possível numa realidade onde as complexidades (primária, secundária e terciária) não são respeitadas nem cuidadas pelos governos? Portanto, a falta de fortalecimento das atividades menos complexas em prol das mais complexas permitirá um olhar integral à saúde? 
  4. A descentralização e a regionalização facilitaram a administração local do sistema ou permitiram que os desvios financeiros acontecessem de forma mais distribuídos? Enfim, as torneiras que sangram os recursos se difundiram Brasil afora, mesmo com as normatizações específicas da área?
  5. Ocorre valorização dos recursos humanos que trabalham no SUS bem como da estrutura das unidades de saúde sejam elas básicas, ambulatoriais e hospitalares?

A grande questão é que, aparentemente, o SUS não se mantém de maneira salutar. Mas, qual o motivo para ele não se manter? Seria por falta de financiamento adequado ou seria por um número excessivo de desvios corruptos na cadeia de funcionamento do próprio SUS? Ou o grande problema seria os próprios princípios do SUS que limitaria a sua funcionalidade. Mesmo com o caos na saúde pública, percebe-se que são muitas perguntas e poucas respostas. Para piorar, as esferas governamentais não conclamam os trabalhadores do sistema (médicos, enfermeiros e demais categorias profissionais) para discutir sobre as dificuldades no intuito de criar soluções. Pelo contrário, os governos costumam apelar e culpar estes trabalhadores pelo caos da saúde. Lastimável! Lamentável! Inadmissível!

Se o SUS não funciona, então, qual seria o melhor modelo? O que colocaremos no lugar? A maioria da população depende dele. Dependem por completo, desde propostas terapêuticas de menor complexidade até as mais complexas. Quanto maior a complexidade, maior o número de pessoas que sofrem por não ter as devidas respostas do sistema. Pessoas estão morrendo por falta de cirurgias, pessoas estão morrendo por falta de leitos de UTI, pessoas estão morrendo pelas dificuldades de atendimentos nas emergências lotadas e por aí vai. Quem paga esta promissória? Onde estão os culpados? Se o SUS não é a opção, há uma necessidade de ter alguma, visto que, a grande parcela da população não encontra respaldo ou proteções de seguros de saúde. Se o SUS continua sendo a opção, é preciso repensá-lo e mudar. É preciso, a meu ver, mais do que mudar, pois, talvez, a melhor construção semântica seria: É PRECISO REVOLUCIONÁ-LO. Mas para revolucioná-lo, precisaremos modificar muitos pontos do funcionamento e da gestão, inclusive política. A revolução deverá ser alicerçada no saber científico e na vivência da realidade. A população, os profissionais de saúde e a sociedade já cansaram de discursos ideológicos e de posturas teatrais de políticos “posudos”. Chega! Basta! A situação é caótica e todos sabem disto. Por que mentir para os outros e para si mesmo? Morre-se muito por falta de uma assistência digna, mas o problema é até mais grave, pois se perde a dignidade pela falta de assistência até para aquilo que é, relativamente, simples. Se você perguntar a alguma pessoa humilde quando será agendado, conforme pedido do médico do postinho, o seu hemograma ou a sua ecografia, você entenderá a minha descrição de perda da dignidade. A realidade é esta sem tirar nem por uma vírgula. O Sistema não consegue responder muitos daqueles que precisam dele. Portanto, necessitaremos, de uma vez por todas, discutir isto e precisaremos parar de pirotecnias como os programas “Mais Médicos” e “Mais Especialidades”. Precisamos ser justos para com aqueles que de fato precisam de cuidado. Do jeito que está não dá para continuar! A realidade é nua e crua para todos enxergarem. Só um míope ideológico é capaz de negá-la. Então, proponho um programa novo que, certamente, será melhor do que estes que citei – o programa “Mais Vergonha na Cara”.

Termino parafraseando o poema de Drummond, pois, assim, esta mensagem ficará mais registrada na mente de quem leu este longo artigo.

E agora, José?
Como fica o SUS?
O dinheiro acabou,
A dignidade findou,
A corrupção aumentou,
A UTI faltou?
E agora, José?
E agora, vamos morrer?
Você que não tem plano de saúde,
Que precisa do governo,
Que teme os “mensaleiros”,
Você que sofre,
Que vota e sonha!
E agora, José?
Você morrerá?
Por que, José?
Tão novo?
Talvez, você morrerá José!
Não tem leito, José
Não tem remédio, José
Não tem vaga, José
Não tem nada, José
Desculpe-me, José
Me deu vontade de chorar!
Sou médico, José
Sinto-me impotente e um pouco culpado
Um dia isto tende mudar, querido José!
O futuro há de ser melhor.
Eu também sou um José.

Dr. Régis Eric Maia Barros – Médico Psiquiatra
Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP – USP
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