Uma triste realidade da medicina

O acontecimento recente, divulgado maciçamente na imprensa, em que um médico se divulgou como especialista, em praticamente tudo, e acabou por ser envolvido na morte de uma paciente, não é algo tão incomum.

Pasmem! Muitos cursos, com supostas especializações médicas, que ocorrem nos finais de semana existem por aí. Todos da área de saúde sabem disso. Nós, médicos, e as entidades médicas têm o discernimento da existência deles. Muitos desses cursos nem são reconhecidos pelo MEC e outros até são. No entanto, mesmo que alguns cursos sejam validados pelos órgãos competentes, fica a dúvida maior: aqueles médicos, que fazem esses cursos, terão, de fato, a capacidade para atuar como especialista na área?

Para os médicos que se matriculam neles, tais cursos nascem e crescem sob duas égides: a primeira como forma de ter algum conhecimento na prática diária daquela suposta especialidade, independente dele se divulgar como sendo especialista ou não; a segunda como forma de galgar em busca de ter a titulação numa especialidade que, por normatizações, só pode ser cadastrada quando o médico faz residência médica nas áreas específicas e/ou prova de titulação referendada pelas entidades médicas de especialidades.

Portanto, muitos desses cursos servem como uma espécie de “gambiarra” para ter um título de especialização após a realização da prova de título da área. Infelizmente, temos até um cenário mais tenebroso, pois, se essa “gambiarra” já é questionável do ponto de vista ético e científico, inclusive nos cursos aprovados pelo MEC, o que poderemos dizer daqueles que nem tem esse crivo? São os famosos cursos mercantis que tentam vender mentiras sobre “conhecimentos inovadores” os quais serão bem rentáveis do ponto de vista financeiro. Eis a fome com a vontade de comer! Um curso fake e questionável e alguns colegas médicos cismando em fazê-los para replicar uma medicina questionável e tão fake quanto.

Após a minha graduação (06 anos), eu fiz residência médica em psiquiatria com atuação em psicoterapia (03 anos), fiz mestrado (03 anos) e, por fim, o doutorado (04 anos) com a ressalva de tudo ser na minha área, ou seja, a psiquiatria. Eu, portanto, me considero um especialista em psiquiatria e estou sempre sedento por conhecimento, pois o saber é contínuo e dinâmico demandando atualização constante. Mas, olha a bizarrice que se instala e que compartilharei aqui. Alguém que fizer algum curso desses de final de semana em psiquiatria e se creditar para fazer a prova de título da especialidade será, em sendo aprovado, especialista também da mesma forma que eu sou. Pouco importará se o conhecimento prático, humano, técnico e científico é questionável. Basta fazer uma prova e ser aprovado nela.

Medicina é coisa séria. Nela, não há espaços para o que é questionável do ponto de vista ético e científico. Nela, não pode haver reverberações do mal feito. Nela, não cabem médicos desviantes que desconsideram o paciente e só visam o lucro ou outros ganhos.
A situação é grave e já há algum tempo. Precisamos rever tudo isso.

Régis Eric Maia Barros

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>