Uma história para ser compartilhada

No consultório, já escutei de tudo. Mas, o que eu escutei hoje precisa ser compartilhado. Portanto, eu o farei agora. Afirmo que o relato da paciente foi confirmado por uma das suas irmãs e uma sobrinha. Ambas a acompanharam na consulta. Tudo o que escutei foi descrito com detalhes e com envolvimento afetivo adequado. Havia dor emocional e não existia nenhum traço de teatralidade. Havia verossimilhança entre os fatos e o que foi relatado.

Mais uma solicitação de urgência. há alguns dias a paciente havia planejado e quase realizado suicídio. Há 3-4 meses ela vinha deprimida e os sintomas depressivos agravaram-se gradativamente até níveis graves que culminaram com o ato descrito a seguir. Ela estava desempregada e conseguiu emprego, mas, por ser homossexual, sofreu agressões morais logo nos primeiros dias do trabalho. Ela não deu conta e acabou por não retornar ao emprego. Esses gatilhos trouxeram e agravaram o quadro depressivo.

Há poucos dias ela, por não suportar mais a dor, decidiu cometer suicídio com enforcamento. Aguardou a saída dos familiares. Preparou a corda e o nó da forca e armou tudo numa laje da parte de fora da casa. Trouxe um banco comprido da cozinho. Escreveu uma carta a próprio punho se despedindo da família e deixou em cima da mesa. Mandou uma mensagem não direta e mais evasiva ao grupo de whatsapp da família falando da dor e de que não suportava mais tudo aquilo. Depois, ela subiu no banco e quando se preparava para armar o laço no pescoço, ela foi surpreendida pela atitude do seu cachorro – um vira latas de médio a grande porte resgatado nas ruas. Ele correu desvairadamente em direção da paciente e acertou com força o banco. Ela caiu antes de ter o acionado o laço no pescoço. Ao cair, ela olhou para ele e, mesmo assim, tentou colocar o banco em pé para subir novamente e encaminhar o projeto suicida. Eis que ele mordeu a calça dela e não soltou mais. Ela falava que ele balançava a cabeça para os lados e a puxava para trás. A partir daí, ela não conseguiu mais continuar. Ela sentou no chão, logo abaixo da forca, e ficou abraçada com seu cachorro e ficou chorando copiosamente. Pouco tempo depois, seus familiares, apavorados pela mensagem enviada minutos atrás no grupo de whatsapp, chegaram a casa. Eles viram tudo que foi descrito nesse relato. Eles foram testemunhas de tudo. A paciente estava abraçada com o Max (esse é o nome dele) e chorava que soluçava. A carta estava lá no mesmo canto. Eles me mostraram ela na consulta. A forca estava na laje. O banco estava caído no chão. E o Max, o herói dessa história, estava lá aguardando pela família.

Depois que tudo estiver tranquilo e sem riscos, eu falei para a paciente e seus familiares que gostaria muito de conhecer o Max.

Um salve ao Max!

Obrigado Max

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>