Um simples haloperidol…

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Há pouco fiz uma perícia de obrigação de fazer com uma solicitação de internação compulsória. Na verdade, uma demanda pericial simples, visto que, o periciando estava completamente psicótico e tinha o juízo crítico de realidade totalmente prejudicado. Ele estava se colocando em situações de riscos pela importante heteroagressividade que apresentava. Portanto, a indicação pericial da internação compulsória estava acolhida e foi deferida.

 

Seria um caso simples e sem reflexões maiores se eu não tivesse me atentado para o real problema submerso na situação. O periciando acima entrou em crise e desorganizou a sua vida e a sua família por uma triste realidade – a falta de medicamentos básicos na rede pública de saúde. O medicamento em questão era o haloperidol. Sei que muitos que me lêem agora podem não saber o que ele é e para o que ele serve. Pois bem, isso por incrível que pareça não é o mais importante, pois o conhecimento farmacológico desse exemplo não trará grandes abstrações. O mais importante é falar que uma caixa de haloperidol com 20 comprimidos custa em torno de R$ 5,00, ou seja, 1 comprimido custaria em torno de 25 centavos. Mesmo assim, ele faltou! Ao entrevistar o requerente e o requerido desse processo, fui informado que essa “falta” não é ocasional, mas sim repetida e quase sistemática.

 

Que falta de respeito! Que agressão à cidadania! Que Estado podre! O mínimo de decência não é executado. Se o haloperidol vem faltando (comprimido de R$ 0,25), o que podemos pensar de um quimioterápico, de uma cirurgia ou de um tratamento mais especializado? O povo, sobretudo os desprotegidos, está entregue às baratas. Aqueles impossibilitados de ter um plano de saúde sucumbem. Esse periciando, citado acima, é um porta-voz de milhares e, por que não dizer, da maioria dos brasileiros. Chegamos ao fundo do poço.  A saúde pública foi tão descuidada e, historicamente, esquecida pelos governantes, em todas as esferas (municipal, estadual e federal) e nos poderes governamentais (executivo e legislativo), que o povo está morrendo. Morre-se em filas para procedimentos. Morre-se em corredores de hospitais lotados. Morre-se em macas de emergências sucateadas. Morre-se por falta de medicamentos. Morre-se por falta de respeito. Morre-se por falta de vergonha na cara de quem deveria ter o mínimo de pudor (os políticos).

 

Um simples haloperidol resolveria o problema do periciando. Ele não teve acesso ao tratamento. A família, numa condição social miserável, não tinha o que fazer. Então, o extremo foi conduzido – a internação compulsória. E depois? Quantas internações compulsórias acontecerão já que o haloperidol vai faltar outras diversas vezes?

 

Régis Eric Maia Barros

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