Um beijo estalado

Sempre recebo meus pacientes na porta de entrada do consultório. Costumo dar um abraço e um beijo no rosto. Entendo que todo encontro deve começar com vínculo e afeto, pois, sem isso, o encontro não teria sentido de acontecer e muito menos de continuar.

Ontem, uma paciente, ao adentrar no meu consultório, antes do meu abraço, correu na minha direção e me deu um grande beijo estalado no meu rosto. Ela nunca tinha feito isso. Portanto, uma situação nova. Essa paciente, portadora de uma depressão severa proveniente de uma grave perda interpessoal na sua vida, sempre foi discreta. Sempre foi chorosa. Sempre foi contida e dominada pela dor. Um luto cruel e ácido que desnudou a sua alma. Ela sentou na sua cadeira diante de mim e, olhando nos meus olhos, falou: “Eu percebo um pouco de luz. Há luz em meio as trevas”. Ela tentava referir que sentia alguma melhora. Mesmo que discreta, uma melhora (luz) sempre é comemorada quando estamos imersos no caos (trevas). Os ajustes terapêuticos foram continuados e nos despedimos de mais uma longa consulta com um abraço bem apertado.

Há estudiosos da mente que dizem que o psiquiatra deve emprestar seu ego àquele que tem um ego esbagaçado pela dor emocional. Até entendo isso, mas acho que o psiquiatra deve mesmo é emprestar seu coração àquele que padece desse mal. O coração vem antes do ego. O coração, repleto de acolhimento e afeto, prioriza-se diante do ego. Depois do beijo estalado, entendi que emprestamos o nosso coração que, ao tocar o coração do outro, é capaz de gerar muita mudança. Acredito que esse toque de corações tenha trazido luz a paciente. Aos poucos, com esse toque, a luz acaba fazendo frente a escuridão das trevas.

Régis Eric Maia Barros

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