Trincheira

band of brothers

Aqui, nesse consultório em que escrevo esse pequeno relato, eu aprendo e cresço todos os dias. A cada história, recebo afeto e engrandecimento pessoal. Isso é natural. Isso é inevitável. Eis que um paciente, antes bem deprimido, presenteou-me com a fala que destacarei abaixo. Hoje, ele está bem e retomou sua vida nos mais diversos aspectos. No entanto, anteriormente, na fase aguda da doença, os dias foram sombrios. Semana passada, ele, durante a sua consulta, agradeceu-me pela melhora com a seguinte fala:

“Doutor, o senhor sabe o que significa uma trincheira? De certo, o senhor sabe sim. Mas, não sei se o senhor sabe o que ela representa na realidade para quem está guerreando. Li muito relatos de quem passou dias e semanas guerreando numa trincheira. Portanto, cheguei a uma conclusão que demanda um agradecimento a você – obrigado, por ter habitado comigo a mesma trincheira durante essa longa e penosa guerra. A trincheira, doutor, é mais do que um buraco a ser compartilhado, mas sim um espaço de muita amizade e de muitos sentimentos. Nela, morremos. Nela, lutamos para viver. Nela, sentimos a morte. Nela, sonhamos com a vida. Numa trincheira, há choro em demasia, há dor e há saudades, contudo há, também, uma imensa amizade e um intenso companheirismo. Afirmo que aqueles que habitaram a mesma trincheira, durante uma guerra, passarão a ter uma ligação infinita para o resto da vida. Numa trincheira, atiramos juntos contra o inimigo. No nosso caso, tentamos acertar essa depressão dura, caro doutor. Mas, na mesma trincheira, vez por outra, somos alvejados com tiros vindo do lado inimigo. Confesso, doutor, que recebemos, sim, alguns tiros dolorosos. Nas trincheiras, a despeito dos balaços, trocamos afetos e valorizamos a vida até por que a morte nos ronda. Percebi que as trincheiras são espaços únicos em que a ajuda mútua é espontânea. Espaços onde um protege o outro, onde um luta pela vida do outro, onde a morte do companheiro é a sua morte. As trincheiras, querido doutor, são locais em que nós nos importamos com aquele que dorme ao nosso lado, em que dividimos o cobertor, a pouca água e a limitada comida. As trincheiras são espaços de irmãos. Obrigado por ter estado comigo, na mesma trincheira, durante essa guerra”

Enfim, é isso! Forte, afetuoso e repleto de sentimentos. Aprendi mais! Aprendi que o médico deve dividir a mesma trincheira com o seu paciente. Sem isso, não acontecerá a medicina…

Régis Eric Maia Barros

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