Renascer

Um paciente, que quase morreu, me falou algo marcante na última semana. Na verdade, em função de uma grave depressão, ele quase se matou. Ele me falou: “doutor, viver é um ato de renascer até por que todos nós, sem exceção, temos histórias tristes a contar”. Perfeito! Ele está certo. Sem exceção, caminhamos na linha do tempo e a dor, de uma forma ou de outra, sempre nos tocará. Não há como fugir disso. “Eita” que vida hábil em nos dar bordoadas! Portanto, como dito pelo sábio paciente, para que nós possamos viver, será preciso aprender a renascer. Um renascimento simbólico. Ou seja, a cada amargura, será preciso ressignificar as coisas. A cada tropeço e a cada pancada, precisamos nos reencontrar. Após acontecer renascimentos, impulsiona-se uma hipertrofia da resiliência. Percebi isso com esse paciente e redefini uma nova função para o psiquiatra – o ato de ajudar no renascer. Entendi que vários pacientes que me procuram acabaram por agonizar ou morrer no simbólico. Eis que preciso ajudar no projeto do renascer. Ajudar na busca de entender o sentido das coisas e os valores a serem empregados na jornada da vida. Quanto mais materiais são esses valores, maior é a chance de sofrimento e de que o renascer falhe. Não é a toa que a psiquiatria carrega em si paradigmas médicos/biológicos e paradigmas humanísticos. Sem esse casamento de paradigmas, a busca do renascimento, naqueles que padecem, tende a falhar. Então, eu guardei comigo a resposta para essa pergunta eventual e repetida: “O que um psiquiatra faz?”. Ele trabalha na promoção de renascimentos até por que se morre no caminhar da vida antes do próprio morrer.

Régis Barros

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