Queixa principal: “fome”

fome

A atividade pericial, em medicina, é árdua e, muitas vezes, dolorosa, pois o perito, sempre, é testemunha ocular e vivencial de inúmeras mazelas que extrapolam a questão da saúde. Na verdade, não é incomum as questões familiares, sociais e econômicas serem mais importantes e significativas do que o agravo à saúde.

Assim, é o meu dia a dia pericial – repleto de histórias tristes e cortantes. No último mês, uma delas me chamou a atenção. Aparentemente, tínhamos um quadro de fácil diagnóstico e com demanda litigante simples (incapacidade cível com interdição total). A apresentação da pericianda e a entrevista clínica confirmavam o óbvio – um retardo mental moderado. A cognição, o intelecto, a capacidade de abstração, a independência e a funcionalidade eram completamente prejudicados. Isso estava na cara e bastava ter olhos para perceber. Aquela senhora (pericianda) de 50 anos demonstrava todos os critérios necessários para o diagnóstico. A fim de complementar o laudo pericial, costuma-se, quando possível, buscar as causas e etiologias. Nesse caso, costumamos interrogar sobre gestação, pré-natal, parto e infecções neonatais. Possivelmente, o perito caminha por aí, pois essas são as causas mais prevalentes na justificativa do quadro.

Durante o momento em que iniciei as perguntas a fim de sanar as dúvidas referentes às possíveis causas, eis que me deparo com uma surpresa. A requerente de maneira descritiva respondeu:

“… nós passamos fome doutor. O que aconteceu a todos nós foi falta de comida. Dos irmãos, morreram seis, sendo que três com menos de um ano de idade. A sopa de raspa de árvore e de raízes secas não dava sustança. Nascemos e vivemos no sertão do Ceará. Naquela época e naquele lugar era certo que viver seria uma luta e sobreviver uma busca. Morria-se aos montes. Não tinha o que comer. Nós nos acostumamos a tudo isso. Às vezes, até nós esquecíamos como se chorava até por que o choro não trazia a comida. Confesso que, no fundo, também tínhamos inveja dos que morriam, pois, pelo menos, o sofrimento findava e haveria o descanso ao lado do pai eterno. Então, doutor, ela e mais dois irmãos são assim meios avoados. Eles não conseguiram se desenvolver e não dão conta de nada. Já no final da adolescência, eu e outra irmã viemos para Brasília num pau de arara. Pensávamos igual – antes morrer tentando viver do que morrer não lutando pela vida. Aqui, trabalhamos em casa de família e, com muito esforço e pelo misericordioso Deus, vencemos. Meu pai morreu cedo quando ainda éramos crianças. Talvez, isso, também, nos motivou a sair daquele inferno. Como minha mãe morreu ano passado, senti-me na obrigação de cuidar dessa minha irmã que o senhor está entrevistando. Eu tenho mais recursos para ajudá-la, pois os irmãos, que estão lá, ainda passam por muitas dificuldades. Então, doutor, a nossa doença foi fome e uma fome que o senhor nunca conseguirá imaginar como foi…”

Confesso uma coisa para todos que estão me lendo até aqui – segurei as lágrimas e lutei para não embargar a voz. A perícia foi finalizada e a conclusão, como falado acima, foi bem simples, todavia tudo aquilo foi uma avalanche no meu ser. Como alguns filósofos pré-socráticos e clássicos, eu tentei refletir em busca das “causas primeiras”. Em outras palavras, qual seria o agente causador daquilo: O demiurgo? O demônio? O clima? O solo? A (não) chuva? O homem? Você? Eu? …

Enfim, a culpa me consumiu. Ela me desorganizou. Qual a minha participação em tudo isso, mesmo que indiretamente e sem voluntariedade. Talvez, alguns me chamarão de marxista ou socialista, contudo há que se questionar: como e por que alguns têm tanto e outros não têm absolutamente nada. Quem tem que pagar essa promissória de culpa? Sim, o Estado há de ser acionado a pagar alguma coisa, mas o quão Estado, nós somos?

Eventos, assim, acabam por nos mudar desde que tenhamos a sensibilidade para se envolver com eles e a humildade de entendê-los. Venho mudando com essas histórias e, por isso, replico, aqui, a frase de Ernesto Guevara, imortalizada no filme Diários de Motocicleta – “eu não sou mais eu, pelo menos não sou o mesmo que era antes”. Acho que este perito, que finaliza este texto, não é mais o mesmo, sobretudo depois de escutar com sensibilidade tantas histórias como essa.

Régis Eric Maia Barros

 

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