Quanta dor…

Já escrevi outras vezes, noutros textos, que, de tanto me envolver com a dor emocional, passei a aprender conviver com ela. A práxis em psiquiatria é assim: lidar e lutar contra a dor e o sofrimento emocional que machuca as pessoas. E como a dor é inevitável, temos, na psiquiatria, que encará-la diariamente. Esse é o meu cotidiano.

No entanto, eu confesso que nunca vi tanta dor emocional. Atuo na psiquiatria há aproximadamente 20 anos e repito que nunca vi tanto sofrimento emocional. Há tanta dor que ela passou a não ser individual, mas sim coletiva e compartilhada. O futuro passou a ser uma dimensão mais incerta que outrora. As mortes e os lutos tiraram o brilho dos dias ensolarados. O barulho do vento e do mar vai perdendo sua magia frente a tantas perdas. O cenário apocalíptico se concretiza ao perceber que o nosso amado país está afundado na mais inepta administração política, quiça, da nossa história.

Nietzsche acreditava que a dor emana da distância entre aquilo que somos e aquilo que idealizamos ser. Nesse momento, certamente, nós sonharíamos com outras idealizações da realidade, todavia a realidade é dura. Sempre, ela dura. E, agora, mais do que nunca, ela é dura. Essa é a nossa realidade sanitária, política e social. Um ataque constante à empatia. Um confronto insano com o bom senso. Avalanches de fake news. Um grande negacionismo em relação à ciência. Economias em frangalhos. Governantes e governos tenebrosos. Um terreno fértil para ansiedade, angústia, depressão, insônia, uso de álcool/drogas e suicídio.

Essa é a nossa sociedade. Contudo, um grito de esperança precisa ser dado. Sonhar com um futuro mais colorido é preciso. Fantasiar que nós voltaremos a nos abraçar e beijar. Que o barulho do vento e do mar voltará a triunfar. Que o sol, novamente, se mostrará majestoso. Sei que a dor de agora é pulsante, porém ela tenderá a desaparecer. Creio na nossa vitória…

Régis Eric Maia Barros

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