O tiro aos 10 anos de idade

Violência criança

Recentemente, após uma criança com 10 anos de idade morrer por tiro de arma de fogo em confronto com a polícia, apareceram as duas versões reducionistas: “ela atirou na polícia” e “ela não atirou na polícia”.

Não percebemos que essas versões representam um pequeno detalhe sobre o caos social. A análise empobrecida sobre o “se ela atirou primeiro ou não” só servirá para culpabilizar e inocentar um lado ou outro. Nesse contexto, não nos atentamos para a reflexão mais importante: só o fato de uma criança portar uma arma de fogo evidencia o quanto estamos socialmente doentes. Pouco importa se a arma tinha munição ou se a criança atirou ou se a criança era culpada. Uma criança com 10 anos de idade foi morta a tiros devido à violência urbana que nos assola e amedronta. Esse é o fato. Ponto final!

Diante de tudo isso, as discussões sobre a matéria são medíocres e os conservadores toscos crescem com seus discursos de moral questionável. Eles propagam a simples punição, a redução da maioridade penal e, quiça, a pena de morte. Como se as medidas punitivas isoladas modificassem alguma realidade social desfavorável.

Pensemos: o que faz uma criança se lançar na criminalidade e portar quaisquer armas? Pensemos mais um pouco: o fato dela ser presa, punida e fichada pela justiça a impedirá ou a amedrontará de praticar outros atos desviantes? Se a resposta de quem me lê for sim, lamento informar que essa criança, salvo as exceções, continuará a sua escalada no crime e na criminalidade. Sabem por quê? Por que o Estado, nós e a sociedade não demos nem damos a mínima para ela. Sem referencial e proteção, não resta outra escolha, visto que, todos nós, inclusive essas crianças, buscamos aquilo que nos parece melhor e protetor.

Acreditem! Para quem vive sem opções e sem possibilidades, o crime seduz e passa uma falsa proteção. Portanto, restarão duas opções para essa sociedade cega: manter a idéia de punir com vigor ou começar a proteger quem é desprotegido. De que adianta prender um, se surgem dois ou três? De que adiante matar dois, se brotam mais quatro ou cinco? É preciso parar para refletir e isso urge. A punição isolada é um dos erros mais graves nesses eventos. Não haverá presídios que dêem conta da escalada da violência.

O que bate volta. Ao fecharmos os nossos olhos, muita coisa respingará na gente. Essa cegueira tem um custo e pagaremos por ele. Semelhante a peste negra medieval, se as portas do cuidado social forem fechadas, a infecção da violência se alastrará do mesmo jeito, visto que, o patógeno avança, sorrateiramente, no seu hospedeiro – nós mesmos, seres humanos que se esquecem de cuidar dos humanos.

 

Régis Eric Maia Barros

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