Nota zero para a NOTA da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

manicômio maling

Nota zero para a NOTA da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

Brasília 15 de dezembro de 2015

Senhores Diretores da ABP,

Com tristeza, decepção e surpresa, eu li a nota de esclarecimento, emitida ontem pela ABP, que fazia referência à nomeação do atual Coordenador de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde. Novamente, merece destaque que os senhores arbitram para si uma fala que nunca é dividida com a coletividade – os associados. Os senhores não respeitam a lógica democrática tão atacada nos tempos atuais. Em nenhum momento, os senhores se dirigiram a nós (psiquiatras brasileiros) para definir o que a ABP deveria dizer sobre o atual Coordenador de Saúde Mental. Uma atitude centralizadora e repleta de histeria midiática. Será que os senhores leram o que o atual Coordenador de Saúde Mental pensa sobre a própria saúde mental? Será que os senhores sabem o que acontecia na Casa de Saúde Dr. Eiras de Paracambi (maior hospital psiquiátrico privado da América Latina)? Claro que os senhores sabem de tudo isso, pois podemos discordar de tudo em termos ideológicos, mas, certamente, a história os senhores não poderão negar ou apagar. Como pensar que a ABP – uma histórica e importante instituição ligada à luta por uma saúde mental digna – apóie tal descalabro.

Os senhores precisam entender que essa lógica corporativista não fortalece a classe. Pelo contrário, nós, psiquiatras, estamos cada vez mais expostos e enfraquecidos em face de posturas como essas – conservadoras, autoritárias, centralizadoras, obtusas, repletas de falsas verdades científicas e com retórica arrogante e vingativa. Será que os senhores acreditam que isso nos fortalece? Será que os senhores crêem que isso trará crédito à categoria? Cada vez mais deixamos de ser protagonista e a culpa não está centrada nos outros ou em outras categorias profissionais. Se há culpados, os senhores acabam por assumir esse fardo e, a partir do momento que emitem notas estapafúrdias, passam a ter cada vez mais culpa. É isso que nos enfraquece. Urge que os senhores entendam que o conhecimento e a construção surgem com o diálogo e não com um discurso com roupagem dominadora e hierárquica. Nossa classe sangra e os senhores, quando emitem notas assim, são os responsáveis pela apunhalada. Depois, os senhores vêm com um joguete semântico de dizer que a “LAMA” (termo usado de forma irônica na nota) é a grande culpada.

Por favor, basta! Olhe o que os senhores divulgaram. Os senhores apoiaram, em nota, um coordenador cuja base teórica vai de encontro ao que acontece no mundo. Os senhores não tiveram, sequer, uma ressalva ao nome dele e fizeram questão de registrar isso de forma redundante. Em passado recente, durante gestão política composta pela grande maioria dos senhores, não houve nenhum questionamento da ABP em relação a um macro-hospital psiquiátrico da região de Sorocaba/SP. Essa instituição hospitalar foi denunciada em rede nacional por maus tratos ao doente mental e os senhores não se manifestaram mesmo com solicitações de vários de nós, psiquiatras brasileiros.

O que significa isso? Que absurdo! Há alguma similaridade ideológica entre os senhores e o atual Coordenador de Saúde Mental? Se sim, sejamos claros, transparentes e passemos a assinar sem usar o nome limpo e glorioso da ABP. Se os senhores vêem a saúde mental como o atual coordenador, falem e divulguem os seus postulados. Discordaremos nas idéias e nos pressupostos, mas, pelo menos, a ABP será poupada do escrutínio social e científico.

Por fim, enquanto psiquiatra, somente me restará à atitude de pedir desculpas, mesmo sem ter culpa. Desculpem-me, usuários e pacientes da saúde mental, sobretudo os que sofreram nos manicômios desse país. A psiquiatria não entende que esse é o instrumento terapêutico a ser usado e, atrevo-me a afirmar, que a maioria dos psiquiatras do Brasil também pensa assim. Por isso, não apoiamos nem aprovamos a nomeação do atual Coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde.

Régis Eric Maia Barros

Médico psiquiatra

Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP-USP

 

 

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