Na calada da noite…

calada da noite

No domingo, ao final do dia, o meu telefone tocou. Mais especificamente às 23:45h. Quando atendi, quem me ligou se apresentou. Um paciente antigo que já não mais estava em acompanhamento comigo. De forma angustiada, ele disse que precisava conversar e queria um aconselhamento meu. Ele não estava chorando, mas percebi que, pelo embargar da sua voz, isso estava prestes a acontecer. Conversamos. Ele sempre foi muito objetivo, portanto aquela ligação não foi demorada. Eu o acolhi e o aconselhei como ele pediu no começo da ligação. Ao final, eu pontuei que estava preocupado com ele e sugeri que ele retornasse ao consultório para conversarmos sobre o que lhe incomodava. Pedi para que ele fosse na segunda-feira mesmo. Apesar de não haver vagas disponíveis, encaixaríamos a consulta. Ele agradeceu e informou que estaria lá na segunda.

Nesse dia, ele compareceu, sim, ao atendimento proposto. Ele foi entrevistado e não foi difícil perceber o seu importante episódio depressivo do momento. As condutas foram tomadas, os medicamentos foram prescritos e a terapêutica compartilhada foi encaminhada. Um retorno foi agendado para daqui poucos dias. Novamente, coloquei-me a sua disposição. Repeti o que falei ao telefone no último domingo: “eu estou aqui. Pode me ligar e mandar mensagem sempre que precisar”. Antes de sair do consultório, ele me deu um abraço apertado e, nessa hora, não conseguiu conter as lágrimas. Assim, ele disse: “doutor, muito e muito obrigado por ter atendido minha ligação durante a noite daquele domingo. Muito obrigado mesmo! O senhor não tem ideia do quanto isso foi importante”. Eu sorri e reforcei a minha disponibilidade. Ele saiu e prometeu que estaria lá no retorno agendado.

Claro que todos nós entendemos a mensagem subliminar dele. Claro que quem leu esse relato, até aqui, compreende o que estaria prestes a acontecer. Claro que, ao conseguir falar sobre a angústia, ele não avançou naquilo que estava pensando em fazer. Pensei comigo sobre o quanto nós, médicos, somos acessíveis ou não. O quanto nós, médicos, somos alcançáveis ou não no período em que as dores físicas e emocionais assolam os pacientes. Conclui que, para ser médico, obrigatoriamente precisamos ser e estar acessíveis e alcançáveis. O médico que não permite ser encontrado, inclusive na calada da noite, precisa rever a sua função e o seu papel.

Régis Eric Maia Barros

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