Meu choro não é escutado…

escutar o choro

Mais uma perícia domiciliar de interdição pelo tribunal em que sou servidor público. Pelos autos, um caso pericialmente simples e com clara verossimilhança nas informações, visto que, a materialidade era contundente. Um senhor que sofreu um grave traumatismo craniano, produto de um atropelamento numa rodovia próxima do seu domicílio. Teve internação longa e passou a ter uma vida muito comprometida e limitada. Passou a necessitar de suporte constante até para as necessidades mais básicas da vida. Casos assim, na minha opinião técnica, nem deveriam demandar perícia médica. Os fatos são tão claros e os autos periciais são, por si só, tão soberanos que a perícia médica deveria não ser realizada. Assim, o rito processual seria mais célere e o sofrimento do periciando e de seus familiares seria minimizado. Perícias como essa costumam ser muito rápidas, pois a minha função é confirmar o que é está descrito nos autos. No entanto, essa perícia foi bem demorada. Não fique lá poucos minutos para confirmar o óbvio, mas sim umas 2 horas e explicarei a seguir o motivo.

Só residiam na humilde casa, o periciando, que estava acamado, e sua esposa. Ela, justamente, estava banhando ele no momento que cheguei. Por não terem recursos, ela não tinha a possibilidade de contratar alguém para executar tais cuidados. Ela mesma os fazia durante o dia todo. Consequentemente, ela necessitou se afastar das suas atividades de trabalho. Viviam do auxílio-doença ofertado pelo governo. Devido a tantos desgastes e humilhações para consegui-lo, eles precisaram mover esse processo para que, definitivamente, a situação fosse regularizada.

Ela pediu para que eu aguardasse até que o banho fosse findado. Assim, eu o fiz. Aproveitei para ver as fotos que estavam nos móveis da sala. Entendo que fotos e películas nos falam muito. Elas são capazes de grandes comunicações afetivas e emocionais. Percebi que estava diante de um belo casal. Eles tinham uma vida simples, mas repleta de grandes histórias. A vida, infelizmente, encarregou de limar as possibilidades de futuro. Como isso é triste! Como isso acontece! Eu vejo isso semanalmente na minha rotina de trabalho.

Ela, então, terminou e veio conversar comigo. Eu já tinha na minha cabeça as conclusões periciais como já havia descrito acima. Perguntei um pouco sobre as fotos e ela me descreveu em detalhes todas. Perguntei sobre eles e sobre sonhos e sobre frustrações. Ela se permitiu falar sobre o futuro ou melhor o “não futuro”. Ela chorou. Como ela chorou! Um choro sincero. Um choro doído e verdadeiro. Um choro de perda. Um choro de luto pela perda da vida mesmo que não tenhamos aí uma morte concreta. Basicamente, escutei e me mostrei atento e respeitoso a dor. Escutar o choro é isso – não falar nada e se permitir receber a dor do outro. Fazer isso de maneira justa e sincera está cada vez mais raro. Por vezes, eu comentava poucas palavras de carinho e ela em seguida continuava a falar sobre exatamente tudo. Nisso, o tempo andou e já se passavam duas horas. Ela mesma me levou ao quarto. Ele inerte na cama e com fraldas geriátricas. Como disse, tudo concreto e em verossimilhança com as descrições. Expliquei para ela sobre as conclusões da perícia e sobre o significado da interdição. Ofereci para ela um cartão do meu consultório e disse que ela poderia entrar em contato com minha secretária. Antes que ela falasse da impossibilidade de pagar, eu falei que não cobraria nada.

Ela me abraçou num abraço forte e disse “obrigado, meu choro não é escutado” e continuou dizendo “obrigado por me escutar e por escutá-lo…”

Terminei a perícia domiciliar e até agora fico pensando nela. Por isso, escrevi esse relato.

Régis Eric Maia Barros

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