Memórias…

Que dia duro! Que dia difícil! Muitos atendimentos pesados. Muitas histórias compartilhadas. A última consulta foi um caso novo. Uma paciente idosa acompanhada dos seus dois filhos. Uma queda cognitiva numa pessoa previamente bem funcional. Funções executivas que evidenciavam lacunas. Memória recente dando mostras de lapsos e déficits. Como é difícil realizar a propedêutica do diagnóstico de uma síndrome demencial. Pelo menos para mim é. Os olhos de todos, que estão nessa situação, cravam-me torcendo para que eu traga outra hipótese reversível capaz de justificar a queda da cognição. Nessa paciente de hoje, aconteceu isso. Eu a entrevistei. Eu testei sua cognição. Eu encaminhei os exames necessários para o caso (laboratoriais, os exames de imagem e a avaliação neuropsicológica). Infelizmente, os indícios clínicos me levaram a crer que estaríamos diante do quadro do qual os filhos ficariam desolados. Restar-nos-ia esperar todos os resultados dos exames, mas, diante da dor, é obrigação buscar o amor. Nas demências em instalação, como no caso da paciente, é costumeiro que as memórias mais remotas ainda estejam preservadas. Sendo assim, antes do fim da consulta, pedi para que a paciente falasse sobre seus dois filhos. Pedi para que ela me falasse deles na infância. Falasse das suas peripécias. Falasse das suas travessuras. Falasse das alegrias que eles viveram juntos. Falasse de histórias. Falasse de viagens. Falasse de sonhos. Falasse deles para eles na frente deles. Confesso que foi lindo. Confesso que foi nostálgico. Terminamos, assim, a consulta de forma mais leve. Houve espaço para risadas e lágrimas compartilhadas. A angústia estava lá, porém por que alimentá-la? As memórias são para sempre e para a eternidade por mais que o parênquima cerebral esteja adoentado.

Régis Eric Maia Barros

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