Joker

Coringa

Muitos já escreveram sobre o filme “Coringa” e muitos ainda escreverão. Não poderia ser diferente, pois, de fato, é um filme primoroso. É um filme daqueles que não se pode deixar de assistir. Ele se constitui numa película universal e eterna de modo que, em qualquer lugar e em qualquer tempo histórico, ele será atual e sensacional. A atuação de Joaquin Phoenix é antológica, mágica e difícil até de descrever. Ele interpretou o Coringa com tanta maestria que existe a possibilidade de que você nem note que o Robert De Niro está no elenco.

O filme traz em si muitas possibilidades de reflexões filosóficas, éticas, políticas e psiquiátricas. Por isso, muita coisa escrita e falada sobre o filme ainda aparecerá. Permitam-me, enquanto psiquiatra e apaixonado por filosofia, fazer 3 rápidas observações com o cuidado de não gerar spoiler.

1º) O mundo de fato está doente. Nossas relações estão doentes. A forma como interagimos e como nos envolvemos está adoentada. A alteridade e a fraternidade morreram. O maniqueísmo e a exclusão do diferente são potentes nesse mundo moderno. Portanto, a intolerância é grotesca. O fel expelido dessa incapacidade de aceitação do outro é constante. Tudo tende a piorar. Tudo tenderá ao caos e ele está bem próximo de nós.

2º) O passado costuma se apresentar no presente. Nada passa inerte. Nossa construção de personalidade é um caminhar continuum, mas as dores ou os sabores da infância e da adolescência costumam nos transformar e nos moldar no que somos hoje. Não que um adulto não possa ficar equilibrado depois de uma infância desastrosa, vulnerável, desprotegida e violenta, porém será muito mais custoso. Ou seja, não tem como pensar num mundo mais sadio com adultos mais sadios se nós nos esquecemos de proteger (individualmente e socialmente) as infâncias.

3º) A tentativa que a sociedade tem de esconder seus problemas e de não aceitar o que quebra a normativa imposta. A tentativa histórica de querer negar a existência do doente. A busca insana de querer fazer com que as pessoas não sejam o que realmente são. Sobretudo, se incomoda o que elas são. Negar o diferente, agredir o divergente e exterminar, concreta e simbolicamente, aquilo que foge a ordem vigente. Extremamente cruel é esse funcionamento o qual é uma práxis do nosso cotidiano. A doença mental é assim para a sociedade. Todos sabem que existem. Na verdade, de uma forma ou de outra, todos a possuem. Mas, também, todos querem e precisam escondê-la e fazer de conta que tudo está normal. Como dito pelo Coringa, “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.

Régis Eric Maia Barros

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