Geração Zolpidem

insônia

Confesso que eu sou um apaixonado pela filosofia. Para mim, se não houver um pensar e um refletir filosófico, acabamos por não entender, devidamente, os fenômenos da vida. Portanto, como psiquiatra e terapeuta, questiono o que há de novo no nosso sono, ou melhor, na insônia das pessoas.

O título desse artigo diz tudo. Observamos um exército de pessoas que, cada vez mais, usam diversos indutores do sono. Não que eu não valorize e não reconheça a existência das patologias primárias e secundárias do sono. Eu também os prescrevo de forma criteriosa. Mas, qual o significado por detrás da existência desse exército?

Escuto recorrentemente a seguinte fala: “doutor, eu não durmo sem essa medicação”. E olhe que a ação efetiva desses indutores do sono acontece nas primeiras semanas de uso. Por isso, eles são usados, sobretudo, para as chamadas insônias transitórias. No entanto, todas as noites, muitas pessoas vêm usando 1, 2 ou mais comprimidos dessa classe farmacológica. Só, assim, conseguem dormir.

O ficar acordado machuca? Eis uma pergunta interessante. Na verdade, vou mais além: pensar sobre si, sobre as angústias e sobre a vida costuma machucar. Entendo que na “geração zolpidem” o que perturba mesmo não é a insônia em si, mas sim essa amargura do pensar. A fragilidade na resiliência faz com que o uso do indutor do sono seja eterno, inclusive fora da própria proposta terapêutica. Depois do uso estendido e contínuo da medicação, aí, se torna uma odisseia retirá-la.

Não restam dúvidas de que dormir é necessário. A insônia é um evento muito incômodo. Todavia, todos nós, médicos prescritores e pacientes, precisaríamos refletir sobre essa dinâmica. Falo sempre que carimbar uma receita é um ato muito simples e prática, mas pensar sobre ela é bem mais complicado. Complemento que entender, desvendar e conversar sobre a origem dos sintomas psiquiátricos é o que faz a diferença no tratamento, pois, se isso não for feito, em algum momento, o sintoma, de uma forma ou de outra, retornará. O sintoma voltará seja por que o paciente parou a medicação ou por tolerância provocada pelo uso continuado. Daí, o tratamento nunca evoluirá. Ou seja, tais indutores e outras moléculas, que surgirão, serão usadas por toda uma vida.

Régis Eric Maia Barros

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