“Fiz para você…”

Ela chegou ao consultório com um sorriso leve. Trazida por suas filhas. Todos eles cearenses tão quanto eu. Suas filhas, que residiam aqui no Planalto Central, preferiram trazê-la para cá a fim de ter um tratamento num local em que ela tivesse um suporte familiar. Assim, foi feito e, por ela ter uma enfermidade psiquiátrica de longa data, eles acabaram por aparecer no consultório. No entanto, o que era preocupante não era a sua doença mental. Essa seria de fácil manejo farmacológico por mais que prejuízos no passado tivessem acontecido. O que realmente chamava a atenção era uma grande tumoração que ela apresentava na face. O volume era tão chamativo que já fazia efeito de massa em regiões da própria face. Diante disso, encaminhei a melhor conduta – correr atrás de tratamento. Uma tarefa árdua frente à situação da saúde pública no país. Todavia, era uma obrigação minha. Eis que parei a consulta e, no meio do atendimento, eu saí ligando para os amigos médicos. Fazemos isso sempre. Nós, médicos, em meio à angústia e as dificuldades, procuramos refúgio em outros queridos amigos médicos. Liga para um e para outro. Pede um help aqui e acolá. Isso faz parte da nossa prática. Eu confesso que nem sei se aquela massa é operável, mas lutar pelo atendimento dela se tornou uma obrigação humanística e moral para mim. Aquele sorriso e aquela leveza dela foram motivadores maiores para essa luta. Ela atentamente percebeu essa busca de atendimento e que o tempo urgia. Não seria possível esperar mais. O tempo já não era nosso aliado. Eis que conseguimos. Minha amada Veca, repleta de bondade e amor, ajudou e encaminhou as coisas para o atendimento. Marquei um retorno para ela em poucos dias a fim de avaliar meus ajustes farmacológicos da doença psiquiátrica. Nesse atendimento, ela trouxe uma pequena sacola que estava amarrada com um pequeno laço. Ela manteve o seu sorriso e entregou-me o pacote. Ela disse: “obrigado, eu fiz para você…”. Nos poucos dias entre as consultas, ela produziu com a sua arte de renda e tricô esse belo lenço. Colocarei num quadro e irei pregarei no meu consultório. Acredito que combinará com minha característica decoração nordestina do espaço.

Régis Eric Maia Barros

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>