“Eu tenho saudades de você…”

alice

Essa foi a saudação de uma paciente que atendi hoje pela manhã. Assim que ela adentrou ao meu consultório, ela falou isso concomitantemente ao habitual beijo e abraço que ela sempre me oferta. Ela é uma paciente idosa muito querida. Como dizemos no coloquial, ela é “aquela vozinha linda e muito fofa”. Sua história, infelizmente, se replica em várias outras senhoras. Ela perdeu o esposo há alguns poucos anos. Os filhos não ficaram tão presentes e a ausência deles e dos netos é sentida de forma doída. A sua rede de apoio não é vasta. Consequentemente, o produto dessa equação é a solidão. Essa já é dolorosa por si só em qualquer momento e fase da vida, mas, quando a solidão nos machuca na velhice, é muito mais doído. Ela encontrou nas consultas um espaço de papos legais e de brincadeiras alegres. Ela transferiu um afeto maternal para nossa relação. Ela usa a consulta para confidenciar suas coisas. Ela aproveita a consulta para falar da solidão. Às vezes, ela agenda novas consultas ou simplesmente as antecipa para poder ter um espaço de escuta. Entendo até que não fazemos consultas, mas sim uma espécie de terapia. Nem chega a ser uma terapia na sua acepção da palavra, pois acabamos mesmo é por bater papo e fofocar. Sendo assim, eu tomei uma decisão em comum acordo com ela. Não vamos mais papear no consultório. Vamos agendar um café semanal para conversarmos fora do consultório. Será muito mais terapêutico em todos os sentidos. E a mirtazapina que ela usa? Podemos continuar prescrevendo. Posso levar as receitas, mas, certamente, o fármaco não é o mais importante nesse caso. O mais importante mesmo é atacar e açoitar a solidão. Num café, num espaço público e em locais onde a vida acontece, a solidão, diante do calor humano e de um bom papo, há de recuar e retroceder. E mais: nesse novo formato, eu acredito que a saudade dela, que tanto a incomoda, poderá ser melhor trabalhada. Ao propor para ela esse novo formato, ela me surpreendeu com a seguinte pergunta exclamativa: “querido doutor, seria eu louca e será que você é louco?”

Eu citei Alice no País das Maravilhas e respondi com uma célebre frase do livro-filme – “as melhores pessoas são loucas…”

Régis Eric Maia Barros

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