Cumplicidade, a prova do vínculo

medicina dedicação

Escuto tantas histórias. Na jornada de psiquiatra e terapeuta, eu escuto de tudo. Acredito, inclusive, que eu seja um dos poucos ou, quem sabe, um dos únicos que sabem de algumas intimidades dos meus pacientes. Na verdade, o tratamento psiquiátrico e psicoterápico, quando bem realizados, fortalece e desnuda. Ao ser desnudado, expomos nossas questões, fragilidades, desejos e frustrações. Consequentemente, a partir disso, podemos trabalhar nossas angústias a fim de evoluir e crescer. Resumidamente, esse é o meu papel – aliviar, tratar e lutar para que os pacientes evoluam. Entendo que um paciente, ao compartilhar comigo, de forma cúmplice, as suas verdades, demonstra uma prova cabal de confiança e cumplicidade. Sinto-me lisonjeado com tamanho vínculo. Isso faz com que eu busque todos os recursos em prol da melhora. Se o paciente entrega, ao seu médico, suas questões e histórias mais escondidas, esse paciente faz ao médico uma deferência rica e ímpar. Não contamos nossas histórias para as pessoas. Parem para refletir! Cada um de nós pode ter alguma coisa a esconder. Por se difícil ou doloroso, acabamos por reprimi-las, deixando-as bem guardadas no esquecimento do inconsciente. Assim, nós fazemos. Você, eu e todos agimos assim. Mas, esse paciente, vinculado ao médico, abre o seu coração e compartilha o que está escondido. Eu, médico e terapeuta, recebo isso todos os dias. Sou um felizardo. Sou agraciado com a confiança. Nesses tempos, em que estamos cada vez mais desconfiados dos outros, eu, na minha prática clínica, sou presenteado diariamente com essa doação de carinho, confiança e vínculo. A atuação médica é, sem sombra de dúvidas, um ato de muita responsabilidade, pois nós, médicos, recebemos mais do que pedidos de ajuda. Podemos até não notar, mas recebemos o que é mais importante na vida de qualquer ser humano – a essência crua e nua das pessoas. Por isso, eu sempre defendo que, para se aproximar da medicina, precisamos, também, nos afastar da medicina. Para sermos médicos, precisamos, também, viver as relações humanas de forma não médica.

Régis Eric Maia Barros

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