A saudade que dói e que faz sorrir

Hoje, bem cedo da manhã, quando estava dirigindo o meu carro para o trabalho, eu escutei uma bela canção de “Santanna, o cantador”. Por ser nordestino e cearense, costumo, nostalgicamente, imergir de forma saudosa na minha essência cultural de origem. Isto me faz muito bem. A canção “Lápis de Cor” trata sobre saudade e o trecho que mais me marca é o seguinte: “Posso até suportar saudades suas. Se até mesmo a lua se faz mais bonita por conta do amor. E é só você chegar pra vida ficar bela. Uma linda aquarela, estampada e pintada com lápis de cor”.

Que magnífico! O sentimento saudade, de fato, nos faz viajar no tempo e relembrar imagens e sensações. Fica pintado na nossa memória e estampado no nosso sentir. Mesmo que os eventos da vida tenham acontecido muito tempo atrás, você sente o toque na pele, o beijo nos lábios, as lágrimas nos olhos e o sorriso no rosto. É vívido e forte. Independente de ser prazeroso ou doloroso, estas sensações ficam marcadas e você sentirá, novamente, como se tivesse vivendo aquilo tudo de novo. Por isto, a saudade é um sentimento forte e por que não dizer necessário. O passado pulsa em todos e, desse modo, a saudade se torna universal. Infelizmente, para alguns com marcas dolorosas, enquanto para outros com toques de amor e fraternidade. Contudo, a saudade é um patrimônio a ser aproveitado. A saudade é, em essência, uma demonstração do viver. Se não houve nostalgias e saudades, conclui-se que a vida foi sem vivacidade e sem por quês e motivos concretos para a existência.

Aristóteles, ao postular sua metafísica e sua filosofia primeira, descrevia que o ser não muda em suas essências e que as qualidades acidentais poderão, sim, variar e mudar, sobretudo na mudança das coisas (devir) que vão do estado de potência para o ato. Ou seja, se eu usar este pensar aristotélico, eu poderei filosofar dizendo que nossa essência é mantida e muitas qualidades vão sendo incorporadas durante a jornada da vida. Portanto, mudamos muito em vários aspectos, todavia nossa essência permanece presente. Se compactuarmos com tal refletir filosófico, concluiremos que a saudade será um dos maiores instrumentos para lembrarmos a nossa essência. Mesmo que você esteja diferente em face de novos predicados acidentais atribuídos a ti, há uma essência em você que estará preservada. Eis que você vestido terno e gravata numa reunião de trabalho se pega a pensar no passado correndo atrás de uma bola ou dançando na chuva ou brincando no parque. Aqui, temos a saudade apontando para dentro de nós e evidenciando o azimute do nosso ser. Doendo ou trazendo felicidade, a saudade nos mostra a nossa história e nos faz lembrar, realmente, quem nós somos. Mantendo um filosofar aristotélico, vou mais além. A saudade, que é intrínseca a todos nós, ajuda a moldar nossa matéria e nossa forma. Conseqüentemente, ela determinará, pelo menos em parte, quem você será.

Se você é saudoso, continue alimentando a sua saudade. Se você não for, tente ser e aproveite esta viagem no tempo para tentar, em essência, se redescobrir. Como bem dito por Santanna – o cantador, “a saudade faz parte de quem já amou”. Então, ame e sinta saudade.

 

Lápis de cor: https://www.youtube.com/watch?v=LI05HWLN2W8

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