A (não) defesa do Hospital Psiquiátrico Tradicional

PSIQUIATRIA

 

Começo esse artigo com uma reflexão: onde gostaríamos que nossos pais ou nossos filhos fossem internados, caso tivessem alguma alteração de comportamento? Após a Reforma da Assistência Psiquiátrica, surge um conceito – hospital psiquiátrico humanizado – que está sendo utilizado de forma repetida nas discussões sobre a matéria.

 

Entendo que esse conceito se propõe, inicialmente, a diferenciar um hospital não manicomial (“humanizado”) de outro manicomial (desumano e eugênico). Até que concordo, em parte, com essa diferenciação, mas minha concordância deixa de existir a partir do momento que o vocábulo “humanizado” é utilizado equivocadamente. Aquilo que é humanizado e eticamente coerente é por si só e nunca poderá ser algo que busque, exclusivamente, a diferenciação entre espaços de masmorra e sofrimento (manicômios) e hospitais psiquiátricos. Em saúde mental, o humanizado sempre vinculará três variáveis fundamentais – a inclusão, a não diferenciação e o ato de não estigmatizar.

 

A internação em qualquer hospital psiquiátrico tradicional, mesmo que não manicomial, não agrega esses pressupostos. Claramente, não há inclusão, pois os pacientes estão excluídos das outras entidades médicas e ficam isolados no seu espaço peculiar de doente mental – o hospital psiquiátrico. Esses pacientes são “diferentes”, pois as resistências e as ideologias os diferenciam dos outros pacientes clínicos e cirúrgicos. Por fim, aquilo que é marcado culturalmente como espaço de “louco” é excludente. O hospital psiquiátrico tradicional incorpora tudo isso e todos, que trabalham em saúde mental, são sabedores de tais conclusões.

 

Então, onde eles deveriam ser tratados nos casos de internação. A resposta é simples – em unidades psiquiátricas em hospitais gerais. Nessas unidades, aquelas premissas são muito mais aplicadas, ou seja, os pacientes são incluídos, não diferenciados e sofrem menos estigma. Isso, sim, é o que eu defino como “humanizado”. Conseqüentemente, o humanizado emana daquilo que é correto e internar o paciente psiquiátrico em hospital geral seria o correto. Ressalto que eu não sou um ser viajante. Pelo contrário, sou sabedor das inúmeras resistências para a inserção de unidades psiquiátricas nos hospitais gerais e da maciça falta de investimentos governamentais para implantá-las. No entanto, se mantivermos esse discurso de hospital psiquiátrico “humanizado” e mantermos uma postura de inércia, sem lutar por isso, nunca conseguiremos inverter essa lógica.

 

Por fim, respondendo ao questionamento acima, se um filho meu tivesse um padecimento mental e necessitasse de uma internação psiquiátrica, eu gostaria que ela fosse realizada num hospital geral. Por quê? Essa resposta é mais simples ainda: por que sou um pai atencioso, ético e que busca o melhor para ele.

 

Régis Eric Maia Barros

 

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