A escuta e o acolhimento de um psiquiatra

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Em psiquiatria, não há muitos exames que permitam diagnosticar as dores emocionais. Na verdade, os padecimentos da alma, causados pelas doenças mentais, só podem ser acessados por um instrumento: a escuta. Isso, obrigatoriamente, coloca a psiquiatria no patamar de uma das especialidades médicas mais apaixonantes, visto que, resta ao psiquiatra, como instrumento terapêutico, o ato de acolher e escutar para depois diagnosticar e tratar. Por isso, a psiquiatria ainda representa a medicina romântica. Aquela medicina onde o médico poder atuar de forma aguerrida usando a si mesmo como terapêutica. Por mais que a ciência avance e a tecnologia prospere, a psiquiatria sempre mantém, na sua essência, esse conceito. Não me interpretem mal. De maneira alguma, eu sou um opositor da ciência ou do avanço tecnológico. Eu também não sou contra os ganhos na terapêutica e nos tratamentos. Contudo, uma psiquiatria sem escuta e acolhimento não serve. Um psiquiatra que não saiba escutar e acolher não é capaz de ajudar. Em meio a essa reflexão, aonde a psiquiatria pousará? Essa pergunta se faz necessária, visto que, a medicina, por vezes, vem se afastando do paciente e das pessoas. Infelizmente, isso é um fato e a constatação disso salta aos olhos. Atualmente, nós, médicos, podemos mais, sabemos mais, entendemos mais, diagnosticamos mais, tratamos mais e, até, “curamos” mais. Tudo isso é fruto desse avanço da ciência e da tecnologia, todavia, mesmo assim, somos, por vezes, menos respeitados e queridos. O que estaria acontecendo? É possível que a medicina venha perdendo a sua narrativa e, por causa disso, ela perde o fascínio. Em face desse equívoco histórico, eu me apaixono, cada vez mais, pela minha especialidade médica. A psiquiatria é um vetor de força que breca esse afastamento com o paciente. Ela, por si só, mostra que o papel do médico psiquiatra transcende o modelo cartesiano imposto à prática médica. Claro que existem muitos médicos que não seguem esse modelo, porém há muitos outros, inclusive colegas psiquiatras, que também o seguem. Resta-nos refletir para onde levaremos a medicina. Nesse contexto, usando uma reflexão algo filosófica e de ficção científica, eu posso afirmar que: mesmo que surja, num futuro longínquo, uma máquina capaz de escanear o paciente mostrando as suas dores, as suas doenças e os tratamentos a serem utilizados, a psiquiatria e o psiquiatra se manterão firmes. O porquê dessa firmeza é simples: não devemos nunca esquecer a pessoa que padece de algo. Restar-nos-á, sempre, escutar e acolher.

 

 

Régis Eric Maia Barros

 

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